Têm uma complexidade genética jamais encontrada em qualquer outro vírus, segundo autores do estudo
Dois
novos vírus gigantes foram descobertos no Brasil, de acordo com um
estudo publicado nesta terça-feira, 27, na revista Nature
Communications. Os dois espécimes - que pertencem a um novo gênero
batizado de Tupanvirus - têm uma complexidade genética jamais encontrada
em qualquer outro vírus, de acordo com os autores do estudo.
Tão grandes que podem ser observados em um microscópio óptico comum, os
vírus gigantes não causam doenças e infectam preferencialmente as
amebas, de acordo com um dos autores do estudo, Jônatas Abrahão,
professor do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG). Ao contrário de outros vírus, o Tupanvirus possui
uma espécie de cauda, cuja função ainda é desconhecida.
"Como outros vírus gigantes já descobertos no passado, o Tupanvirus
infecta amebas. A diferença é que ele é muito mais generalista: ao
contrário dos outros, ele é capaz de infectar diferentes tipos de
amebas", disse Abrahão à reportagem.
De acordo com Abrahão, as amebas estão entre os seres mais antigos da
Terra, o que leva os cientistas a levantarem a hipótese de que os vírus
gigantes também podem ser bastante antigos. "Olhar para a relação entre
vírus gigantes e amebas equivale a olhar para o passado e entender a
origem das primeiras formas de vida", explicou o cientista.
O pesquisador conta que os dois vírus foram encontrados em ambientes
aquáticos extremos, em condições semelhantes às que deram origem às
primeiras formas de vida na Terra. Um deles foi coletado por outro dos
autores do estudo, Ivan Bergier, da Embrapa Pantanal, nas lagoas de água
altamente salgada de alcalina que ficam em Nhecolândia, na região de
Corumbá (MS).
"O outro Tupanvirus foi identificado em sedimentos marinhos coletados
por um robô da Petrobras a cerca de 3 mil metros de profundidade, na
região da Bacia de Campos, na costa do Rio de Janeiro", disse Abrahão.
Além dos estudos biológicos, os cientistas sequenciaram os genomas
completos dos dois Tupanvirus. "A coisa mais fantástica relacionado ao
genoma desses vírus é a presença de um conjunto praticamente completo
dos genes relacionados à produção de proteínas", afirmou o pesquisador.
Abrahão explica que até 2003, quando foi descoberto o primeiro vírus
gigante, na França, não havia registro de nenhum vírus que possuísse os
genes responsáveis por "montar as peças" das proteínas.
"Com a descoberta dos supervírus, vimos que esses genes podem estar
presentes nos genomas virais. Mas o Tupanvirus possui todos os genes
necessários para incorporar todos os 20 tipos existentes de aminoácidos
nas proteínas", disse o pesquisador.
Segundo ele, a análise genômica também mostrou que o Tupanvirus possui
genes semelhantes aos que existem em vírus conhecidos e em três domínios
da vida: archea, bacteria e eukarya. "Também observamos que um terço
dos genes do Tupanvirus são completamente novos e desconhecido", afirmou
Abrahão.
Elo perdido
O pesquisador afirma que, por todas essas características, o Tupanvirus
pode ser considerado uma espécie de "elo perdido" na evolução dos
microorganismos.
"Os vírus parasitam células por duas razões. Uma é produzir proteína,
utilizando a maquinaria celular para isso. A outra é produzir energia.
No caso do Tupanvirus, ele não possui genes para produzir energia, mas
tem quase todos os genes relacionados à produção de proteínas. Essa
característica muda a noção que temos da distinção entre os vírus e os
organismos formados por células", explicou.
A descoberta dos vírus gigantes, segundo Abrahão, deflagrou um debate
sobre a evolução dos vírus entre os cientistas. Uma das teorias
principais é que os vírus gigantes tenham evoluído a partir de um
ancestral mais simples por meio da aquisição de genes de hospedeiros
infectados. A outra teoria é que os ancestrais dos vírus gigantes também
tenham sido ainda mais gigantescos, que foram perdendo os genes
dispensáveis ao longo do tempo.
"As características básicas que permitem distinguir os vírus dos
organismos celulares está sendo revista com o Tupanvirus. Alguns
cientistas defendem que os vírus gigantes representam um quarto domínio
da vida. Há um debate intenso sobre isso e o Tupanvirus com certeza vai
colocar mais combustível nessa discussão", disse Abrahão. Com
informações do Estadão Conteúdo.
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Estadão Conteúdo.
